Capítulo 12: Apêndice X3 — Ferramentas de Filtro de Adequação ao Ágil
Core Idea
Um questionário de 8 perguntas em grupo (não individual), pontuado de 1 a 10 e plotado num gráfico de radar, diagnostica se um projeto se encaixa melhor em ágil puro (agrupado no centro), preditivo puro (nas bordas) ou híbrido (espalhado) — é ferramenta de diagnóstico e conversa, não veredito automático.
Frameworks Introduzidos
- Modelo de Adequação da Abordagem Ágil (síntese do guia, baseado no Questionário de Adequação do DSDM de 1994, nos critérios de tamanho/criticidade da família Crystal, e no modelo de Boehm e Turner): 3 categorias — Cultura (aceitação da abordagem pelo patrocinador sênior, confiança na equipe, autonomia de decisão da equipe), Equipe (tamanho, nível de experiência, acesso diário a representante do negócio/cliente), Projeto (probabilidade de mudança de requisitos, criticidade do produto/serviço, viabilidade de entrega incremental).
- Como usar: reúna um grupo representativo (patrocinador + líder técnico + cliente em projetos pequenos; mais partes interessadas em projetos grandes), pontue cada pergunta de 1 (bom ajuste ágil) a 10 (bom ajuste preditivo) por consenso — nunca uma pessoa só —, plote no radar. Agrupamento central = ágil; bordas = preditivo; espalhado = híbrido.
- Regra de desempate do questionário: quando o grupo não concorda numa pontuação, isso já é sinal útil — discuta abertamente em vez de usar médias artificiais ou marcar posições separadas por subgrupo. Se a ferramenta indicar uma abordagem mas todos preferirem outra, o consenso das partes interessadas vale mais que o diagnóstico — use o resultado como insumo pro gerenciamento de risco, não como veredito.
Reference Table — As 9 perguntas do questionário (categoria → o que avalia → escala 1/5/10)
| Categoria | Pergunta | 1 (ágil) | 5 | 10 (preditivo) |
|---|
| Cultura | Aceitação da abordagem pelo patrocinador sênior | Sim | Parcial | Não |
| Cultura | Confiança da equipe pelos patrocinadores/negócio | Sim | Provável | Improvável |
| Cultura | Autonomia da equipe pra decisões locais | Sim | Provável | Improvável |
| Equipe | Tamanho da equipe principal | 1-9 pessoas | ~46-60 | 201+ |
| Equipe | Experiência dos papéis-chave | Sim (todo papel tem ao menos 1 experiente) | Parcial | Não |
| Equipe | Acesso diário a representante do negócio/cliente | Sim | Parcial | Não |
| Projeto | % de requisitos que mudam por mês | ~50% | ~25% | ~5% |
| Projeto | Criticidade (o que uma falha pode custar) | Prazo/fundos discricionários | Fundos essenciais | Vida(s) |
| Projeto | Viabilidade de entrega incremental com feedback | Sim | Às vezes | Improvável |
Mental Models
- Nenhuma pessoa sozinha deve pontuar o questionário — a mesma lógica de não deixar uma pessoa só estimar/planejar um projeto inteiro se aplica aqui: qualquer indivíduo tem viés e visão limitada.
- O valor real da ferramenta é o diálogo que ela provoca, não o número final — mesmo que o resultado aponte híbrido, se as partes interessadas quiserem seguir 100% ágil ou 100% preditivo, o guia diz pra aceitar o consenso.
Worked Example
O guia compara dois casos reais pontuados no mesmo modelo: uma farmácia online vendendo remédios canadenses mais baratos pra clientes americanos — setor com regulação controversa, requisitos extremamente voláteis (mudanças grandes toda semana), mas equipe pequena e experiente com acesso fácil a um representante de negócio experiente. Resultado: agrupamento forte no centro do radar (alta aceitação, alta confiança, alta autonomia), apesar da criticidade financeira alta — a equipe usou iterações de 2 dias e releases semanais, e a abordagem foi "muito bem-sucedida e extremamente ágil". Em contraste, um sistema de mensagens militares rodando há 5 anos no momento da avaliação puxa o radar em direção às bordas em vários eixos. A lição: criticidade alta sozinha não empurra um projeto pra preditivo — a farmácia tinha fundos essenciais em jogo e ainda assim foi bem-sucedida em ágil puro, porque cultura e equipe compensaram. O diagnóstico é sempre a combinação dos 3 eixos, não um fator isolado.
Key Takeaways
- Use o questionário em grupo, nunca sozinho — o desacordo entre avaliadores já é informação, não ruído a ser eliminado por média.
- Os 3 eixos (cultura, equipe, projeto) pesam juntos — alta criticidade não desqualifica ágil se cultura e equipe forem fortes o suficiente (caso da farmácia).
- Resultado espalhado no radar (não agrupado nem no centro nem nas bordas) é sinal legítimo de que uma abordagem híbrida é a resposta certa, não um "empate" a ser forçado pra um lado.
- A ferramenta serve principalmente pra abrir a conversa entre as partes interessadas — o número final é ponto de partida de discussão, não decisão automática.
Connects To
- Cap 3: os filtros de adequação são citados lá (Seção 3.1.5) como recurso pra decidir ciclo de vida — este capítulo é o detalhamento completo da ferramenta.
- Cap 11 / Apêndice X2: se o diagnóstico apontar híbrido ou apontar riscos específicos (ex. baixa experiência de equipe), as recomendações de tailoring de lá indicam o que fazer a respeito.
- Cap 2: o Modelo de Incerteza e Complexidade (Stacey) é a base conceitual por trás dos eixos "probabilidade de mudança" e "criticidade" usados aqui.